Categoria: Marketing Político

  • Dinâmica da política: conveniência no bastidor, ideologia no palanque

    Os últimos acontecimentos da política local, rompimentos, reposicionamentos estratégicos, retiradas e lançamentos de pré-candidaturas, não são exceção nem anomalia. Eles revelam, na verdade, o funcionamento mais comum da política brasileira: a lógica da sobrevivência e da conveniência precedem o discurso, e o discurso costuma vir depois para justificar tal conveniência. Nos bastidores, a política é fluida. As alianças se formam e se desfazem conforme o cálculo eleitoral, a leitura do momento, as chances reais de vitória e o espaço que cada ator imagina ocupar no próximo ciclo de poder. Esse movimento é pragmático, racional e, em grande medida, legítimo dentro das regras do jogo democrático. Porém, não se enganem, na maioria dos casos, essa dinâmica será apresentada na campanha como se fosse resultado de convicções ideológicas profundas e inegociáveis.

    A maior parte dos atores políticos não se movimenta guiada por dogmas, mas por sobrevivência política. O discurso ideológico surge, muitas vezes, não como causa do movimento, mas como sua narrativa posterior. Primeiro se decide para onde ir; depois se constrói a justificativa pública que melhor dialoga com o eleitorado que se deseja alcançar. Nesse ponto também, a política tem deixado de ser apenas estratégica e passa a se tornar performática. O mesmo ator que, ontem, transitava com naturalidade entre campos distintos, hoje assume um papel ideológico rígido, apresenta-se como guardião de valores e tenta convencer o eleitor de que sempre esteve naquele lugar. Não porque mudou de ideia, mas porque mudou o cenário.

    TRE RN anuncia preparação das uRio Grande do Norteas Foto José Aldenir Agora RN

    Urna – Foto: José Aldenir Agora RN

    Esse fenômeno se intensifica em momentos pré-eleitorais. À medida que o voto se aproxima, cresce a necessidade de simplificação. A política, que é complexa e cheia de nuances, passa a ser vendida em rótulos fáceis e de maior absorção popular: “direita versus esquerda”, “conservadores versus progressistas”, “novo versus velho”. Esses enquadramentos ajudam a organizar o debate público, mas também escondem as contradições reais dos movimentos feitos longe dos holofotes.

    O eleitor menos atento tende a consumir o discurso final, não o processo. Vê a fala pronta, o posicionamento ensaiado, a identidade política já embalada para o horário eleitoral. Tendem a não acompanhar às negociações, os cálculos e às conversas que explicam por que aquele discurso passou a existir. Isso não significa que ideologia não importe, seja menor ou simplesmente não exista. Ela importa e muito. Mas, na prática, ela costuma ser mais invocada do que praticada, mais útil como instrumento de convencimento do que como bússola permanente de decisão. Quando a ideologia vira figurino, ela perde força como projeto e vira apenas ferramenta de disputa.

    Os movimentos recentes da política local deixam uma lição clara: entender política exige olhar menos para o que se diz no palanque e mais para o que se faz quando não há microfone ligado. A coerência não está apenas no discurso, mas na trajetória. E o voto consciente começa quando o eleitor percebe que, muitas vezes, a convicção anunciada é só a tradução pública de uma escolha que pode ter sido feita por conveniência.

    No fim das contas, a política não é feita apenas de ideias, mas sim de interesses. O desafio democrático está em saber distinguir quando uma ideia orienta um interesse e quando um interesse apenas se disfarça de ideia.

    Artigo publicado no AgoraRN

  • Quando a narrativa grita e o fato sussurra

    Nas últimas semanas, a deputada Natália Bonavides voltou ao centro de uma polêmica tão imediata quanto artificial, quando adversários passaram a acusá-la de defender um suposto “fim da Polícia Militar”. A narrativa ganhou tração nas redes bolsonaristas e foi ecoada por parte da imprensa, seguindo um roteiro de tentativa de ganho eleitoral já bastante disseminado na política brasileira, no qual a comunicação cria um rótulo simples, emocional e de forte apelo, ainda que desconectado da realidade factual.

    O fato concreto é que Natália jamais defendeu o fim da polícia. Ao contrário, é uma parlamentar que destina recursos sistemáticos para a instituição, tendo sido, inclusive, condecorada com a maior honraria da corporação, por relevantes serviços prestados à Polícia Militar e à segurança pública do estado. Levanta-se, então, uma pergunta que deveria ser óbvia: qual instituição premiaria alguém que estivesse trabalhando para enfraquecê-la?

    Natália Bonavides (57)

    Quando a narrativa grita e o fato sussurra – Foto: José Aldenir/Agora RN

    O que explica, portanto, o tamanho da reação? A resposta está menos no conteúdo da questão e mais na disputa de narrativa. Para alguns setores da política, qualquer discussão sobre segurança pública vira combustível para ataques fáceis, destinados a provocar medo, gerar engajamento e marcar posição ideológica. É mais lucrativo politicamente simplificar tudo a um falso dilema de ser “a favor ou contra a polícia”, “a favor ou contra bandidos”, do que permitir um debate sério e responsável sobre um tema tão importante. A discussão sobre a militarização das polícias, que existe no Brasil (e no mundo) há décadas, não trata de extinguir a instituição, mas de discutir o seu modelo. Não se debate se a polícia deveria existir, mas como ela poderia funcionar melhor. É o mesmo modelo já adotado por diversas forças civis que atuam com eficiência e reconhecimento, como: Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Polícia Civil e Guardas Municipais. Nenhuma delas é militarizada, e nem por isso alguém sugeriria que elas são “contra a segurança pública”.

    Quando setores políticos atacam qualquer menção a esse debate, o objetivo não é proteger o policial, mas sim proteger uma narrativa. Uma narrativa que transforma nuances em escândalos, que impede a população de entender a discussão real e que rende muitos dividendos eleitorais para quem vive do pânico moral e da polarização. Nesse ambiente, refletir dá menos voto do que simplesmente atacar. O caso envolvendo a deputada é um exemplo didático de como funciona esse mecanismo. É mais fácil e mais útil, para alguns atores, criar uma imagem de que ela seria “contra a polícia” do que discutir o tema da militarização. Muito menos, reconhecer que a deputada investe recursos na instituição e que, por isso, foi reconhecida por ela. É muito mais vantajoso inflar uma acusação falsa do que admitir que, por trás da fumaça, existe apenas a tentativa de obter ganhos eleitorais.

    No fim, o Brasil segue perdendo boas oportunidades de tratar o grave problema da segurança pública de forma séria e responsável, uma vez que parte da política prefere o atalho da narrativa vantajosa unicamente a si, do que o compromisso com o fato. Enquanto isso, o ruído segue falando mais alto que a verdade.

    Artigo publicado no AgoraRN

  • A guerra de narrativas e o esvaziamento do debate político

    A lógica da lacração sufoca o debate público e transforma a política em espetáculo vazio

    O Brasil vive um momento em que a política deixou de ser o campo da batalha de ideias e passou a ser o campo da batalha por engajamento. A discussão pública foi praticamente sequestrada pela lógica do “gancho de atenção”, em que é mais relevante lacrar do que convencer, gerar reação do que provocar reflexão. A guerra de narrativas substituiu o debate político consistente por disputas de curtidas, e o resultado é um país cada vez mais barulhento, porém cada vez menos profundo.

    O fenômeno é visível em todas as esferas. O que antes era uma arena de confronto de projetos, hoje é um ringue de performances. A política virou entretenimento. E, como em todo espetáculo, o que vale é o aplauso, ainda que ele dure pouco.

    Um exemplo recente ajuda a entender como essa lógica se manifesta nas decisões de governo. Em meio à crise de segurança pública, ganhou força a proposta de transformar facções criminosas em grupos terroristas. A medida soa firme, gera manchetes, repercute nas redes e dá à população a sensação de que algo mais consistente está sendo feito. Porém, na prática, essa é uma resposta mais simbólica do que uma solução efetiva. Ao contrário, essa classificação pode gerar muito mais problema ao país e à sua soberania do que o contrário. Trata-se de uma proposta pensada para vencer a narrativa, não o problema.

    Quando a política passa a ser guiada pela necessidade de parecer agir, e não pela urgência de agir de fato, os problemas são tratados somente na superfície. O discurso substitui o planejamento e a reação substitui a estratégia. As consequências já estão aí e marcarão a história do país.

    Um estudo recente do Instituto Opus Pesquisa, em parceria com a Lumer Consultoria, ilustra esse dilema com dados. A pesquisa analisou o comportamento digital do prefeito de Sorocaba, Rodrigo Manga, e do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Os resultados mostram que, embora Manga tenha um engajamento muito superior, com postagens que viralizam e mobilizam emoções, Tarcísio é percebido pela população como tendo um perfil mais sóbrio e um conteúdo mais claro. Para 76% dos entrevistados, Tarcísio é mais claro em relação às suas ações, contra apenas 19% de Manga. Em outras palavras, a lacração rende curtidas, mas não necessariamente credibilidade.

    O caso revela uma distinção crucial: popularidade digital não é sinônimo de capital político sólido. Enquanto a política continuar refém da estética do imediatismo, será cada vez mais raro ver discussões profundas sobre os problemas reais da população. O desafio é repolitizar a política, redescobrir o valor da conversa, da dúvida, do contraditório e do bom debate democrático. Diga não à lacração!

    Artigo publicado no Brasil247

  • Pesquisa boa, terreno instável: o desafio estratégico de Lula

    A nova rodada nacional da Genial/Quaest trouxe dois recados simultâneos para o Planalto: de um lado, um clima de opinião mais favorável, de outro, sinais de atenção que pedem calibragem fina até o ano eleitoral. Na fotografia da semana, a pesquisa de avaliação do governo mostra um quadro de significativa ascensão, sendo o melhor momento do ano para o presidente. Do ponto de vista eleitoral, Lula continua bastante competitivo e permanece a frente dos seus possíveis adversários. 

    Para o marqueteiro e cientista político, Bruno Oliveira, o governo tem motivos para comemorar, porém, o caminho até 2026 ainda trará muitos desafios para Lula. “O presidente vive o seu melhor momento do seu pior ano em 3 mandatos. Obviamente, o governo deve comemorar esses resultados, mas ainda existem muitas lacunas abertas e que podem trazer sérias dificuldades para Lula no ano eleitoral”. 

    Segundo a Genial/Quaest, o governo atingiu o seu melhor patamar de aprovação do ano, com 48% de aprovação. No nordeste, principal reduto de Lula, a aprovação do governo subiu de 53% em junho para 62% em outubro. No sudeste, a aprovação subiu de 40% para 44% e no sul, subiu de 35% para 41%, no mesmo período. 

    Há três fatores que podem estar ajudando o governo neste momento:

    1. Símbolos recentes – Episódios de grande repercussão (como a presença na ONU e movimentos na política externa, como o diálogo com Trump) repercutem no fortalecimento deste sentimento de melhora. Quando perguntados se Lula saiu mais fortalecido após o encontro com Trump, 49% dos entrevistados afirmaram que ele saiu mais forte, contra 27% que afirmaram que ele saiu mais fraco. 
    2. Tema econômico e bolso – Mesmo com a ambivalência típica do humor econômico, a pauta tributária – especialmente o projeto de isenção do IR, bem como o conceito de taxar os mais ricos para isentar os mais pobres – também contribuem para o bom momento do governo. Quando perguntados se concordam com o aumento dos impostos dos mais ricos, para compensar a isenção de quem ganha até 5 mil reais, 64% dos entrevistados responderam que sim, contra 29% que afirmaram discordar. 
    3. Adversário fragmentado – O momento para a oposição e para o bolsonarismo não é bom. As declarações do filho do ex-presidente, a condenação de Bolsonaro e a indefinição em relação a quem será o seu candidato, contribuem para que Lula siga com vantagem na disputa de 2026.

    Os pontos de atenção para 2026

    Mesmo com vento a favor, há muito trabalho pela frente para o governo:

    • Fadiga em segmentos-chave: Lula segue com muita dificuldade em alguns segmentos, como evangélicos (63% de desaprovação), ensino superior (56% de desaprovação) e jovens (54% de desaprovação). 
    • Economia percebida x economia medida: o eleitor lê a inflação pela prateleira do mercado. Se alimento e serviços pressionam no dia a dia, a percepção contamina a avaliação. A seção de preços, poder de compra e emprego indica que melhoras graduais precisam ser traduzidas em ganhos concretos e comunicados com precisão. 
    • Direção do país e saturação de noticiário: quando a maioria não enxerga “direção certa”, narrativas negativas ganham tração. É crucial blindar a pauta propositiva e diminuir ruído, sobretudo em semanas com agenda congressual sensível, que costumam redistribuir culpas e afetar humor difuso. 

    Para Bruno Oliveira, a melhora na condução da comunicação do governo vem surtindo efeito, mas é preciso mais: “Claramente houve uma melhora na forma, mas o maior ganho tem sido na construção da narrativa, que agora parece ser mais direta, mais objetiva e mais  alinhada com a linha política do governo. Porém, não podemos esquecer que Lula é um líder carismático e tem um grande potencial pessoal, que muitas vezes tem sido deixado de lado neste governo, diferente dos 2 primeiros. Lula no contato próximo com o povo é muito forte. O seu poder de conexão, especialmente com os mais humildes, é uma força que tem sido deixada de lado. Ao meu ver, é preciso retomar agendas mais intensas pelos rincões do país, se aproximar mais das bases e mostrar que ele, de fato, se preocupa em diminuir as desigualdades existentes no país”, afirmou o analista. 

  • A arquitetura da vitória: como nasce uma campanha vencedora

    Campanha eleitoral não é fruto do acaso. Por trás de cada vitória existe uma engrenagem estratégica bem desenhada, capaz de organizar recursos, narrativas e pessoas em torno de um objetivo claro: conquistar votos. Quando essa engrenagem falha, o resultado costuma ser uma campanha confusa, perdida entre improvisos e ações desconectadas, o que podemos chamer de “campanhas de aventura”.

    A estratégia é a arquitetura invisível que sustenta uma disputa eleitoral. Assim como não se ergue um prédio sem uma planta, nenhum candidato deveria iniciar sua jornada sem um plano detalhado. Não se trata apenas de definir o que será dito, mas de compreender a fundo o território eleitoral, identificar públicos prioritários, construir uma narrativa central e planejar como cada frente de campanha (digital, TV, rádio, rua, militância, influenciadores) se conectam a esse desenho.

    Ao longo dos anos, vimos campanhas que apostaram apenas em comunicação de impacto e até chegaram a despertar entusiasmo momentâneo, mas que não resistiram ao teste do tempo. Faltava a base estratégica: saber onde atacar, quando recuar, em que regiões concentrar energia, quais pautas priorizar e como administrar os recursos, muitas vezes escassos, de forma inteligente. O improviso pode gerar barulho, mas dificilmente gera vitória.

    O estrategista político tem justamente o papel de organizar o tabuleiro. Ele não é apenas o responsável por criar slogans, pensar em materiais que tenham potencial viral ou aprovar peças de mídia. Ele é quem precisa enxergar a eleição como um jogo de múltiplas camadas, onde cada movimento precisa estar conectado a um objetivo maior. É quem transforma pesquisas em insumo real de campanha, quem entende que redes sociais não vivem isoladas das ruas, e quem sabe que uma narrativa só é poderosa quando se mantém coerente em todos os espaços.

    Nas grandes disputas, vencer não é falar mais alto, mas falar de forma planejada e estratégica. Não é ter mais recursos, mas usá-los com inteligência. Não é aparecer em todo lugar ao mesmo tempo, mas estar no lugar certo, com a mensagem certa, na hora exata. Essa é a verdadeira arquitetura da vitória: alinhar estratégia, narrativa e execução em um projeto sólido, capaz de resistir à pressão da eleição.

    Eleições se ganham no detalhe, mas só quando cada detalhe faz parte de um todo coerente. Porque, no fim, não são as campanhas que mais improvisam que vencem, e sim as que melhor executam uma estratégia.

    Artigo publicado no AgoraRN

  • Por que a estratégia é a alma de uma campanha eleitoral

    Nas eleições, especialmente na era das redes sociais, é comum ver candidatos e equipes obcecados pela quantidade de curtidas, seguidores e visualizações. O ambiente digital, com sua velocidade e capacidade de viralizar conteúdos, parece oferecer atalhos fáceis para conquistar a atenção do eleitorado. No entanto, a história mostra que campanhas bem-sucedidas não se constroem tão somente com números aparentes. Likes até podem se converter em votos, mas também são métricas de vaidade. O que sustenta uma campanha vitoriosa é uma estratégia sólida, capaz de orientar todas as ações táticas.

    É importante entender a diferença entre estratégia e tática. A tática é o movimento imediato: um post bem-feito, um vídeo criativo, uma ação de rua de impacto. Já a estratégia é o fio condutor, o plano maior que conecta cada uma dessas iniciativas em uma narrativa coerente. Sem estratégia, a campanha se fragmenta em movimentos desordenados, muitas vezes contraditórios, que confundem o eleitor.

    Não faltam exemplos de candidatos que viralizam com um vídeo ou um meme, mas não conseguem converter essa visibilidade em votos. Isso acontece porque o conteúdo não estava alinhado a uma narrativa central capaz de se enraizar no imaginário da população. Do outro lado, há campanhas menos ruidosas, com menos recursos, mas que se organizam em torno de uma mensagem clara e de uma estratégia consistente que, por isso, muitas vezes causam “surpresas” nas urnas.

    A coerência é um dos pilares de uma boa estratégia. Uma candidatura deve se apoiar em pesquisa, conhecer profundamente o perfil do eleitorado e saber qual história quer contar. Só assim cada ação tática, seja um programa de TV, um jingle, um post no Instagram ou um discurso em comício, reforça o mesmo posicionamento. É a soma de tudo, que, orientada por uma linha mestra, cria uma percepção de solidez, confiabilidade e proximidade junto ao eleitor. Apenas observar uma ação bem sucedida de um candidato e querer replicar o modelo, sem adequar a ideia da sua linha estratégica é um erro muito comum.

    O grande desafio de qualquer campanha é transformar ações dispersas em uma narrativa convincente. A estratégia é o que aponta o norte, enquanto as táticas são os passos dados ao longo do caminho. Quando bem coordenadas, não apenas aumentam a visibilidade do candidato, mas também consolidam sua imagem, conquistam confiança e mobilizam apoios reais.

    Em política, não vence quem mais aparece. Vence quem consegue mostrar de forma consistente por que merece a confiança do eleitor. Likes alimentam o ego; votos constroem a história.

  • A força da cauda longa na comunicação política

    Na comunicação e no marketing, a teoria da cauda longa descreve o movimento de sair do foco nos produtos mais vendidos para explorar nichos que, somados, representam um mercado tão ou mais valioso do que o das massas. No universo político, esse conceito nunca foi tão atual. Se antes a comunicação era feita para grandes blocos da sociedade, hoje a tecnologia permite falar de forma cirúrgica com públicos específicos, transformando o que era genérico em personalizado.

    Durante décadas, campanhas eleitorais se apoiaram em mensagens amplas e homogêneas, repetidas à exaustão na televisão e no rádio. O objetivo era atingir o maior número de pessoas com um discurso único, quase como se o eleitor fosse um consumidor de um produto “tamanho único”. A lógica era simples: quem falasse para todos, ganharia mais espaço. Mas o digital mudou radicalmente esse cenário.

    homem de visao inferior sendo entrevistado

    A força da cauda longa na comunicação política – Foto: Freepik

    As ferramentas de tráfego pago permitiram que campanhas eleitorais se tornassem verdadeiras máquinas de segmentação. O que alguns chamam de campanhas “inchadas” de anúncios não é apenas volume: é inteligência. Hoje, é possível direcionar mensagens distintas para públicos com interesses, idades, localidades e até comportamentos online diferentes. Um mesmo candidato pode falar de transporte público para o estudante universitário, de oportunidades de emprego para o trabalhador da periferia e de investimentos em inovação para o jovem empreendedor. Todos recebem uma mensagem que toca diretamente a sua realidade.

    Essa personalização não é apenas um detalhe técnico, mas uma mudança de paradigma. Na política, o discurso genérico já não mobiliza como antes. O eleitor conectado espera relevância. E relevância, nesse contexto, significa falar a língua dele, reconhecer seus problemas específicos e apresentar soluções que façam sentido no seu cotidiano. Quem insiste em mensagens únicas, na esperança de atingir a massa, acaba se tornando irrelevante no meio do ruído digital.

    Ao explorar a cauda longa, a comunicação política amplia suas chances de engajamento real. Em vez de apostar todas as fichas em um grande “produto” de campanha, a estratégia passa a ser entregar muitas versões ajustadas, cada uma delas capaz de gerar identificação e confiança em segmentos distintos. É uma lógica que requer mais trabalho, análise de dados e criatividade, mas que deve resultar em resultados eleitorais consistentes.

    No cenário atual, a comunicação política que ignora a cauda longa corre o risco de falar sozinha. O digital não substituiu a necessidade de mensagens amplas, mas deixou claro que o diferencial está em oferecer o específico. Porque, em campanha, quem insiste no genérico se perde na multidão. Já quem entende a força da personalização encontra eco, conquista nichos e transforma cada clique em voto.

    Artigo publicado no AgoraRN

  • Campanha eleitoral não é mais sobre convencer, é sobre mobilizar

    Nos últimos anos, o jogo eleitoral mudou de forma radical. Se antes o grande desafio era convencer o eleitor, hoje, a disputa mais estratégica é fazer com que ele saia de casa e vote. Parece simples, mas mobilizar é muito mais complexo do que persuadir, e é aqui que as campanhas vencedoras se diferenciam.

    Em várias cidades do Nordeste, a abstenção ultrapassa a casa dos 20%, e, quando somamos votos brancos e nulos, percebemos que uma fatia considerável da população simplesmente não tem o menor interesse em participar do processo. Em outras palavras: com exceção dos polos políticos que são mais calcificados na opinião e que simpatizam com determinadas candidaturas a partir da ideologia, uma parte cada vez mais significativa do eleitorado se sente pouco motivada a transformar seus anseios em voto.

    Durante o último ciclo eleitoral, participei de campanhas em diferentes contextos políticos que, de alguma maneira, confirmaram essa tendência. Em algumas, o desafio não era conquistar corações e mentes, mas criar um senso de urgência e pertencimento capaz de levar o eleitor até a urna. Isso exige mais do que slogans ou jingles pegajosos: demanda estratégia, dados e conexão emocional. Mobilizar significa entender o que move (ou paralisa) um determinado grupo. Em áreas urbanas, isso pode estar ligado a temas como transporte, emprego e segurança. Em regiões rurais, questões de acesso a serviços básicos ou valorização da cultura local podem ter mais força. O ponto é que a mensagem precisa ser customizada para cada segmento e entregue no canal certo, na hora certa.

    Um erro comum é tratar a mobilização apenas como um esforço da reta final, aquele famoso “corpo a corpo” nos últimos dias. Na prática, ela precisa estar no DNA da campanha do primeiro planejamento até a última caminhada de rua. Isso inclui mapear zonas eleitorais com menor comparecimento histórico, treinar multiplicadores de mensagem e criar conteúdos digitais que reforcem a importância do voto de forma inspiradora. Tudo isso, claro, construído com uma comunicação eficaz, inteligente e pautada em dados e informações relevantes.

    Já vi campanhas tecnicamente bem estruturadas perderem eleições porque não conseguiram ativar o eleitor indeciso que até simpatizava, mas não estava disposto a sair de casa. Por outro lado, testemunhei viradas impressionantes quando o foco foi colocado na mobilização desde o início.

    No fim, a lição é clara: o voto que decide uma eleição muitas vezes pode até já estar conquistado na mente do eleitor. O desafio é transformá-lo em ação no dia certo. Campanhas que entendem isso não apenas saem na frente, elas chegam primeiro na linha de chegada.

    Artigo publicado no AgoraRN