Pesquisa boa, terreno instável: o desafio estratégico de Lula

A nova rodada nacional da Genial/Quaest trouxe dois recados simultâneos para o Planalto: de um lado, um clima de opinião mais favorável, de outro, sinais de atenção que pedem calibragem fina até o ano eleitoral. Na fotografia da semana, a pesquisa de avaliação do governo mostra um quadro de significativa ascensão, sendo o melhor momento do ano para o presidente. Do ponto de vista eleitoral, Lula continua bastante competitivo e permanece a frente dos seus possíveis adversários. 

Para o marqueteiro e cientista político, Bruno Oliveira, o governo tem motivos para comemorar, porém, o caminho até 2026 ainda trará muitos desafios para Lula. “O presidente vive o seu melhor momento do seu pior ano em 3 mandatos. Obviamente, o governo deve comemorar esses resultados, mas ainda existem muitas lacunas abertas e que podem trazer sérias dificuldades para Lula no ano eleitoral”. 

Segundo a Genial/Quaest, o governo atingiu o seu melhor patamar de aprovação do ano, com 48% de aprovação. No nordeste, principal reduto de Lula, a aprovação do governo subiu de 53% em junho para 62% em outubro. No sudeste, a aprovação subiu de 40% para 44% e no sul, subiu de 35% para 41%, no mesmo período. 

Há três fatores que podem estar ajudando o governo neste momento:

  1. Símbolos recentes – Episódios de grande repercussão (como a presença na ONU e movimentos na política externa, como o diálogo com Trump) repercutem no fortalecimento deste sentimento de melhora. Quando perguntados se Lula saiu mais fortalecido após o encontro com Trump, 49% dos entrevistados afirmaram que ele saiu mais forte, contra 27% que afirmaram que ele saiu mais fraco. 
  2. Tema econômico e bolso – Mesmo com a ambivalência típica do humor econômico, a pauta tributária – especialmente o projeto de isenção do IR, bem como o conceito de taxar os mais ricos para isentar os mais pobres – também contribuem para o bom momento do governo. Quando perguntados se concordam com o aumento dos impostos dos mais ricos, para compensar a isenção de quem ganha até 5 mil reais, 64% dos entrevistados responderam que sim, contra 29% que afirmaram discordar. 
  3. Adversário fragmentado – O momento para a oposição e para o bolsonarismo não é bom. As declarações do filho do ex-presidente, a condenação de Bolsonaro e a indefinição em relação a quem será o seu candidato, contribuem para que Lula siga com vantagem na disputa de 2026.

Os pontos de atenção para 2026

Mesmo com vento a favor, há muito trabalho pela frente para o governo:

  • Fadiga em segmentos-chave: Lula segue com muita dificuldade em alguns segmentos, como evangélicos (63% de desaprovação), ensino superior (56% de desaprovação) e jovens (54% de desaprovação). 
  • Economia percebida x economia medida: o eleitor lê a inflação pela prateleira do mercado. Se alimento e serviços pressionam no dia a dia, a percepção contamina a avaliação. A seção de preços, poder de compra e emprego indica que melhoras graduais precisam ser traduzidas em ganhos concretos e comunicados com precisão. 
  • Direção do país e saturação de noticiário: quando a maioria não enxerga “direção certa”, narrativas negativas ganham tração. É crucial blindar a pauta propositiva e diminuir ruído, sobretudo em semanas com agenda congressual sensível, que costumam redistribuir culpas e afetar humor difuso. 

Para Bruno Oliveira, a melhora na condução da comunicação do governo vem surtindo efeito, mas é preciso mais: “Claramente houve uma melhora na forma, mas o maior ganho tem sido na construção da narrativa, que agora parece ser mais direta, mais objetiva e mais  alinhada com a linha política do governo. Porém, não podemos esquecer que Lula é um líder carismático e tem um grande potencial pessoal, que muitas vezes tem sido deixado de lado neste governo, diferente dos 2 primeiros. Lula no contato próximo com o povo é muito forte. O seu poder de conexão, especialmente com os mais humildes, é uma força que tem sido deixada de lado. Ao meu ver, é preciso retomar agendas mais intensas pelos rincões do país, se aproximar mais das bases e mostrar que ele, de fato, se preocupa em diminuir as desigualdades existentes no país”, afirmou o analista. 

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